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setembro 26, 2004

Eram quatro alentejanos ...

Mais um cheirinho do tal projecto. Esta parte não está revista

Jorge deu-se conta, ao subir as escadas, que se sentia cansado. Não só cansaço físico mas também falta de ânimo. Talvez até uma certa amargura. Suspirou levemente, olhou para cima, para o patamar do 2º andar onde morava há vários anos e, depois de uma breve hesitação, venceu o último lanço de escadas, um pouco mais determinado. A vida solitária que escolhera depois do divórcio devolvera-lhe a tranquilidade ao assenhorear-se por inteiro dos seus horários, do seu ritmo de vida, das suas opções que antes lhe pareciam vedadas pela constante desaprovação da Rita. A secura e a rispidez da ex-mulher, pensava ele, devia-se à sua esterilidade. Tornara-se obsessiva e antipática depois de conhecer o seu drama, ela que adorava crianças. Os amigos foram rareando e a vida a dois tornara-se insuportável.

No banco, os colegas notavam-lhe a tristeza e o desânimo mas faltava-lhes a coragem para o incentivar. Perante um claro espanto, Jorge convidou-os um dia para um copo e comunicou-lhes a decisão de se divorciar. Assentimento geral com reticências à mistura e as recomendações de quem já tinha experiências semelhantes.

Rita comunicara-lhe que regressaria ao Alentejo para se dedicar às duas sobrinhas que haviam perdido a mãe no nascimento da mais nova.

Com pouco mais de quarenta anos, Jorge modificou-se a pouco e pouco. Mais expansivo, perdeu a irrascibilidade com que os colegas sempre o conheceram e passou a fazer grupo com alguns conterrâneos mas reservou sempre para si uma intimidade que não queria violada, quase se tornando misógeno. Não mais lhe conheceram mulher na sua vida e, quando em grupo se falava de mulheres, não participava, embora não se alheasse por completo a julgar por um ou outro sorriso à socapa. Vingou-se de um passado de quinze anos em que se sentiu castrado e oprimido como depois concluiu. Passou a frequentar lugares até então fechados pela sua pontualidade na chegada a casa, de onde já não saía até ao dia seguinte para regressar ao trabalho. Exposições, teatro, cinema, livrarias foram-lhe ocupando o tempo disponível, à mistura com tertúlias de amigos de onde saía preenchido e com a satisfação que o rosto e o íntimo não escondiam. Iniciou uma espécie de diário, uns registos como lhe chamava, onde escrevia não só acontecimentos mas algumas reflexões alheias ou de sua lavra. Não o fazia obstinadamente e com método mas quando sentia a mão a puxar-lhe para o caderno. Tornara-se inseparável da leitura. Primeiro ao acaso, depois refinando o gosto e fixando-se nos autores portugueses de que se havia desabituado nos quinze anos de casamento.

Era outro homem. Mas dez anos passados, já cinquentão, passou a questionar-se, a bisbelhotar a memória, a traduzir os silêncios, a preocupar-se com o sentido do tempo e com a morte. Não porque a sentisse perto porque era um homem saudável mas porque os cabelos grisalhos lhe lembravam todos os dias que era mais fácil descer degraus que subi-los. Percebeu que já não vivia os dias com a mesma alacridade e a mesma paixão. Filosoficamente, predispôs-se a aceitar a entrada na velhice, acolhendo a perda da vitalidade física que substituía pelo enriquecimento espiritual. Traçou esse rumo como filosofia de vida mas multiplicavam-se agora os momentos de regresso às memórias e a cultivar uma certa raiva por não ter experimentado o que lhe era devido no tempo próprio. Percebia que querer recuperar o que acreditava ter-lhe fugido era um acto postiço e até um pouco ridículo. A vida tem os seus momentos próprios que só artificialmente temos a ilusão de recuperar.

De pouco lhe acrescentavam os devaneios sombrios, pensou, e com um copo de leite frio que retirara do frigorífico, sentou-se no seu sofá preferido, os outros tinham pouco uso, e dispôs-se a ver as notícias na televisão e talvez um filme de acção para descarregar as frustrações, que também as sentia.

COMMENT:
AUTHOR: Mar
DATE:9/26/2004 08:55:58 PM
Gosto de ver que a criatividade étanta na prosa como na poesia. Bonito, aguarda-se com expectativa pelos próximos capítulos ;-)

Publicado por nocturnoplacido às setembro 26, 2004 11:38 AM

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Comentários

Deixa-me ver, Mar, como serão os próximos capítulos. estou a rever tudo o que escrevi e já não sei para onde as palavras me levam.

Publicado por: pedra às setembro 27, 2004 11:00 PM

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