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outubro 29, 2004

Se tu me esqueces

Quero que saibas
uma coisa

Tu sabes como é:
se contemplo
a lua de cristal, os ramos rubros
do outono lento da minha janela,
se toco
ao pé do lume
a implacável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo a ti me conduz,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direcção às tuas ilhas que me esperam.

Ora bem,
se a pouco e pouco deixas de amar-me
deixarei de amar-te a pouco e pouco.
Se de repente
me esqueceres,
não me procures,
quejá te haverei esquecido.

Se consideras longo e louco
o vento de bandeiras
que percorre a minha vida
e decidires
deixar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
levantarei os braços
e as minhas raízes irão
procurar outra terra.

Mas
se em cada dia,
em cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se cada dia em teus lábios
nasce uma flor que me procura,
ai, meu amor, ai, minha
todo esse fogo em mim se renova,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor do teu amor se nutre, amada,
e enquanto viveres continuará nos teus braços
sem abandonar os meus.


(Pablo Neruda, in "Os versos do Capitão")

Publicado por nocturnoplacido às outubro 29, 2004 09:07 AM

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Comentários

Tira-me o pão, se quiseres
tira-me o ar, mas não
me tires o teu sorisso...

Pablo Neruda

É dos meus preferidos.

Publicado por: belimunda às outubro 29, 2004 11:05 AM

Considero Neruda, um dos meus preferidos. E este excerto é a afirmação disso mesmo.

Publicado por: Mach1 às outubro 29, 2004 01:36 PM

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