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outubro 23, 2004
Sem Título
A minha noite não cabe neste quarto
onde as confidências do mar
mancham de sal as cortinas e as roupas.
Há na dor uma inteligência perversa
que a faz organizar o desespero
em cada investida. Estou sentado
sobre a página e a minha visão
quase nada abarca porque é sôfrega,
quase nada alcança porque é tímida.
Tem os seus signos esta noite:
o retrato dos mortos, a angústia dos vivos,
as primordiais leituras, as últimas viagens.
A minha noite não cabe nesta escrita,
porque é ampla como uma câmara capaz
de reter as imagens todas da volúpia,
da revelação e do assombro. Deito-me
sobre as camas desta noite
e a solidão de que padeço é tentacular
como um animal exacerbado pela tristeza
imóvel que o mutila. A minha noite
não cabe neste quarto, que é o lugar
onde a metade da voz encontra eco,
fulgor e espaço para se tornar plena.
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Publicado por nocturnoplacido às outubro 23, 2004 04:23 PM
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