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novembro 28, 2005

Era um largo. No sonho.
Havia sorrisos no cantar dos pássaros
e tufos de loendreiros brancos
a lembrar-me que ali estive
O chão era de pedra e não chovia
naquele largo onde caminhei
e agora se desvendou em sinais

É como um pressentimento de inverno
que alivia as árvores das folhas
para o horizonte surgir mais limpo

Há um ténue ruído da respiração da chuva
e tudo é mais suave e nítido
todas as coisas simples se revelam grandes
Todos os sons e todas as cores
têm agora a pureza da luz que as define
Até as árvores frente à casa
têm uma vida que não percebia
Até os murmúrios na entrega dos corpos
me sabem à descoberta do silêncio do tempo

Sei agora que o Amor não morre com a morte

Publicado por nocturnoplacido às 03:02 PM | Comentários (8) | TrackBack

novembro 24, 2005

Foi preciso escolher a porta
para chegar ao largo
e me fascinar com as cores
que a luz da memória registou
Eu já antes sabia sem saber:
a brevidade e a distância
só existem no vento que criei
nos desígnios da dor
e dos limites que me impus
na obstinação da finitude do tempo
No que tantas vezes vivi
só agora contemplo a ilusão
Não é tarde
para acertar as contas comigo
nunca é tarde
para dissipar os véus que escondem as respostas
para transpor os pórticos
da minha imortalidade
É aí que te guardo
lótus da manhã
neste presente que é todo o passado
e todo o futuro

Publicado por nocturnoplacido às 01:01 PM | Comentários (4) | TrackBack

novembro 23, 2005

Na respiração dos ventos
te encontrei de novo
regressada da tua ausência
Só por ilusão me separei de ti
As cordas
sei-o agora
tinham laços frouxos
Os muros e as serras eram transponíveis
Sei-o agora
nesta planície sem sombras

Publicado por nocturnoplacido às 11:48 AM | Comentários (7) | TrackBack

novembro 22, 2005

É no outono que nasce o poema
que suspeitei no fim do verão
quando as cores e os sons das palavras
são mais vívidos e lúcidos
Quando a luz difusa do entardecer
nos esconde e nos revela
e o teu rosto surge suavemente
como um nenúfar
um cálice
para esta sede inesgotável
Aí me transformo
me suplanto
me espanto no espelho da memória
até os pirilampos rasgarem a noite

Publicado por nocturnoplacido às 03:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 18, 2005

Quando algumas pessoas se me dirigiram lamentando o facto de não ter querido continuar nas funções que desempenhei, recordei-me de um pensamento de Frederico, O Grande:
"Embora possa não ser um rei na minha vida futura, tanto melhor: nem por isso deixarei de viver uma vida activa e, acima de tudo, colherei menos ingratidão."

Publicado por nocturnoplacido às 04:19 PM | Comentários (10) | TrackBack

Lapso meu

Por qualquer lapso meu, ou ainda alguma falta de rotina com o novo visual do weblog, apaguei o anterior post, que ainda por cima, apareceu duplicado. Aqui vai de novo.

Trouxeste uma rosa vermelha
colhida na música dos rios
numa noite de jardins nocturnos
Sem espinhos que me ferissem
abracei-lhe o perfume
e li a cor das pétalas
Eram as palavras da fábrica do tempo
quando os gestos de amor
não precisavam de palavras:
eram intuições gémeas
que nada podia perturbar
Neste tempo de palavras
regressei ao âmago da rosa
e o amor ficou explicado

Publicado por nocturnoplacido às 04:11 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 11, 2005

Vamos lá a ver...

... se é desta que isto vai. É que agora que tenho mais tempo para me dedicar a "isto" a verdade é que me apetece cada vez menos. O exemplo mais recente da minha falta de apetite é um comentário que me foi deixado há dias e que só ontem li e que, francamente, me parece tão execrável que me abstenho de mais adjectivações. Embora não me sendo dirigido nem me envolva, não é nada estimulante saber que se utiliza a blogosfera para este tipo de comentários.

Aliás, recentemente, por altura da campanha eleitoral para as autárquicas, deparei com outros exemplos de cobardia e de mentiras e até de calúnias envolvendo familiares meus que me deixaram triste por saber que há seres humanos que preferem escolher a via tortuosa e da má consciência em vez de optarem pela lisura, pela clareza e pela verdade. Pobres deles que ainda não perceberam o essencial da vida e nem sequer percebem que não atingem os seus maléficos objectivos porque deste lado está alguém muito tranquilo, pleno de auto estima, muito feliz, que não alberga ódios nem retaliações. Só lhes desejo que encontrem a paz que lhes falta e que saibam encontrar o caminho do amor, da tolerância e da amizade.

Num dos comentários que foi feito à minha promessa de voltar, é-me perguntado para quando o quarto livro. Pela minha parte ele está pronto. No entanto, convidei uma artista plástica que me fez algumas sugestões que muito me agradam. Passou a ser um trabalho conjunto que espero agrade aos editores. Estará para breve.

Como não tenho deixado de escrever, aqui deixo um dos últimos trabalhos durante uma gripe que não foi das aves:


FEBRE


Encosto a febre
às lágrimas da chuva na janela
agora que a sede é mais forte
e os teus lábios se ausentaram
Não quero ninguém por perto
prefiro a impotência de não ser chuva
de não ser pássaro
em direcção àquelas nuvens
Neste semear de gemidos roucos
pressinto o mar que não vejo
a afagar as escamas do meu corpo
A mão não procura a espuma
nem anoiteço
Espero-te para contigo navegar
depois da chuva
depois da febre


Publicado por nocturnoplacido às 12:18 PM | Comentários (9) | TrackBack