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dezembro 22, 2005

É muito provável que haja alguma irracionalidade nesta coisa de um impenitente mediterrânico, em pleno inverno, em vez de procurar os climas quentes que todas as agências de viagens oferecem, optar por fazer mil e duzentos quilómetros ao volante à procura de uma semana rodeado de branco por todo o lado. Que os pobres nórdicos, enregelados desde que nasceram, escolham as Caraíbas faz todo o sentido. Porém, sair do frio alentejano para procurar mais frio até parece masoquismo.
Ou será a busca do exotismo no sentido inverso do tradicional?
Seja o que for espero voltar inteiro porque esquis foi coisa que nunca calcei.
Desejo-vos um bom Natal, um gorro, um ramo de azeviche e muitas prendinhas.

Publicado por nocturnoplacido às 07:41 PM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 15, 2005


As pedras moldadas pela erosão
que colhi na vazante da maré
aprisionei-as numa taça de vidro
em água para lhes avivar a vida

Olho a superfície da água
para mais fundo ver o céu
e aquela ténue lâmina quieta
que separa a água dos meus olhos
é o espelho desta paz inconsciente
que não consente perguntas

vindo dum impulso milenar
olho as pedras vivas
para saber que sempre ali estiveram
e eu aqui com elas
nesta tranquilidade deslembrada
dos poucos da vida

Publicado por nocturnoplacido às 12:38 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 13, 2005

É como diz LG num comentário: isto da gestão do tempo torna-se mais complicado quando se tem tempo. Quando andamos atarefados com mil coisas para tratar, deixamos tudo ao calendário das coisas importantes e chegamos ao fim do dia contentes por termos trabalhado muito e nem sempre feito tudo. Mas voltamos no dia seguinte, cheios de energia e com mais obstáculos para contornar e ficamos satisfeitos porque fizemos coisas importantes.

Porém, neste tempo sem tempo, aprendi, sem horas marcadas, que os coisas simples, os quase nadas, são tão importantes, tão importantes, que desaprendi de gerir o tempo. Ou, se quiserem, desaprendi de gerir o calendário.

O meu tempo são os sorrisos da Leonor, os olhos da Susana e do João, as cumplicidades dos meus amigos, as mãos da minha Princesa, os sabores das palavras lidas que as escritas são poucas. Querem coisas mais importantes?

Para isto não há calendários!

Publicado por nocturnoplacido às 03:26 PM | Comentários (8) | TrackBack

dezembro 05, 2005

Lobo do mar

Ninguém sabe de onde veio nem porque ali chegou. Sabe-se que não terá família e que vive pobremente do pouco que vai conseguindo com uns biscates nos barcos do porto ou de alguma reforma. Usa uma barba comprida, hirsuta e deverá ter mais de sessenta anos.

Nunca o ouvi falar e poucos lhe conhecem a fala. É de estatura mediana e agora, no Inverno, deverá viver com mais dificuldades. Vive sozinho, num casebre, no pequeno porto, de frente para o rio quase mar.

Dizem que há muito tempo teve um profundo desgosto. Uns que terá perdido a família, outros predizem um mal de amor. Não sei se lhe conhecem o nome porque lhe chamam lobo do mar.

A única coisa que se lhe conhece é a profunda tristeza, a sua vida solitária e sem amigos, embora aceite e estimado.

Hoje lembrei-me dele e do que levará um homem a viver exilado, a tão expressiva tristeza, a um tal desprendimento da vida.

Só as águas lhe conhecerão o mistério quando estende no mar o olhar.

Publicado por nocturnoplacido às 04:40 PM | Comentários (7) | TrackBack